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Ao ameaçar "fogo e fúria", Trump rompe tradição de presidentes dos EUA contra Coreia do Norte

11 de Agosto de 2017 01:22
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Ao ameaçar "fogo e fúria", Trump rompe tradição de presidentes dos EUA contra Coreia do Norte

Quando Dwight D. Eisenhower quis forçar a Coreia do Norte a entrar em negociações para pôr um fim à Guerra da Coreia, ele enviou uma mensagem secreta para Pyongyang e Pequim ameaçando um ataque nuclear caso elas não se sentassem à mesa para negociar com Seul.

Depois que a Coreia do Norte capturou em 1968 um navio espião da Marinha americana ao largo de sua costa leste com 83 tripulantes a bordo, Lyndon B. Johnson procurou a diplomacia para desarmar a crise, e deu início a 11 meses de conversas clandestinas para fechar o acordo.

Bill Clinton usou advertências cordiais, mas contundentes—reforçadas por uma clara ameaça de ataque com míssil—para fazer com que Pyongyang interrompesse suas tentativas de processar plutônio em 1994 e se submetesse a negociações sobre a suspensão de seu programa nuclear.

Os comentários incendiários do presidente Donald Trump na terça-feira, alertando que usaria de "fogo e fúria" se a Coreia do Norte continuasse ameaçando os Estados Unidos, foram um perturbador sinal de que ele poderia estar disposto a descartar um princípio que existe há décadas, contra o uso antecipado de armas nucleares.

Ele também rompeu com uma longa tradição de presidentes americanos que usaram advertências claras, ameaças cuidadosamente calibradas e uma diplomacia urgente—e às vezes secreta—para acalmar crises iminentes com a Coreia do Norte.

"Nós nunca ameaçamos—nem nunca teríamos ameaçado—usar armas nucleares", disse William J. Perry, que assumiu o cargo de secretário de Defesa meses antes da confrontação de Clinton com a Coreia do Norte em 1994. "Além disso, eu e muitos de meus colegas militares acreditamos que é um grande erro fazer ameaças vazias. Isso enfraquece nossa credibilidade se você não as cumpre, e pode estimular o regime do outro lado, que deve estar muito nervoso nesse momento, a adotar algumas ações precipitadas."

Em vez disso, quando os norte-coreanos expulsaram inspetores da ONU de seu reator de pesquisa nuclear em Yongbyon e declararam sua intenção de processar plutônio ali, Perry disse que ele e Clinton decidiram que sua estratégia seria deixar claro que os Estados Unidos nunca permitiriam uma ação como essa. Eles pressionariam por uma saída diplomática, mas planejavam um ataque militar para destruir o reator caso as negociações falhassem.

"Queríamos ser claros, mas não queríamos ser explícitos a respeito da ameaça, ainda que eles soubessem e que nós soubéssemos qual era o plano", disse Perry, que concebeu o plano para um ataque de míssil de cruzeiro se uma ação como essa se tornasse necessária.

Os norte-coreanos foram recalcitrantes em público, chamando Perry de "maníaco da guerra" —"não se esquece de uma coisa como essa", ele disse em uma entrevista— mas eles também reconheceram que a ameaça era real.

Um editorial estrategicamente publicado no "The Washington Post" —escrito por Brent Scowcroft, ex-assessor de segurança nacional nas administrações de Gerald R. Ford e George Bush— e que recomendava um ataque militar contra a Coreia do Norte, exatamente do mesmo tipo que o governo vinha considerando secretamente, ajudou a convencer Pyongyang de que os americanos estavam falando sério.

"Eu sempre achei que Kim Il-sung acreditava que na verdade eu havia plantado aquela matéria", disse Perry, referindo-se ao líder norte-coreano da época. "Não há dúvidas de que nossa ameaça, reforçada incidentalmente por aquele editorial, era muito clara, muito simples e muito preocupante para eles. Em poucos dias conseguimos uma negociação."

Eisenhower também usou a vantagem de um possível ataque militar para pressionar os norte-coreanos e os chineses a entrarem em um acordo de paz para encerrar a Guerra da Coreia. Tendo feito campanha em cima do fim do conflito, ele passou três dias na Península Coreana antes de sua posse, percorrendo o campo de batalha em uma viagem que, segundo ele disse posteriormente, solidificou sua visão de que a situação havia chegado a um impasse e não poderia se sustentar.

"Ele enviou uma mensagem secreta aos norte-coreanos e aos chineses dizendo que usaria bombas atômicas contra eles se eles não voltassem à mesa de negociações de paz, e isso fez com que eles voltassem por medo, o que resultou em uma trégua que existe até hoje", disse o historiador especializado em presidentes Robert Dallek.

"Esse tipo de bravata que ouvimos de Donald Trump não é calculada, e não é como os presidentes em geral lidaram com essas ameaças."

Johnson também procurou amenizar as tensões com a Coreia do Norte quando surgiu uma crise que coincidia com o auge da Guerra do Vietnã, quando ele mal podia se dar ao luxo de se envolver em mais um grande confronto militar, disse Dallek. Em janeiro de 1968, canhoneiras norte-coreanas capturaram o Pueblo, navio espião da Marinha, levando como reféns os 83 tripulantes.

Dean Rusk, o secretário de Estado na época, disse que o episódio entrava na "categoria de ações a serem interpretadas como um ato de guerra". "Minha advertência aos norte-coreanos", disse Rusk, "era que se acalmassem".

Johnson disse que a captura do Pueblo era "um ato gratuito e agressivo", acrescentando que "isso claramente é inaceitável".

Mas ao levar a questão perante o Conselho de Segurança da ONU, Johnson não fez ameaças de ação militar. Ele disse que os Estados Unidos "continuariam usando todos os meios disponíveis para encontrar uma solução pacífica e rápida para o problema", acrescentando que havia tomado "medidas preventivas para se certificar de que nossas forças militares estivessem preparadas para qualquer contingência que pudesse surgir".

O que seguiu foram 11 meses de negociações secretas entre autoridades americanas e norte-coreanas, com os Estados Unidos insistindo que o Pueblo e sua tripulação fossem libertados e Pyongyang se recusando a fazê-lo sem um pedido oficial de desculpas vindo de um oficial de alto escalão por aquilo que ela caracterizava como uma intrusão deliberada em território norte-coreano por parte de espiões americanos.

Tomando cuidado para não assustar ou provocar os norte-coreanos com o início das negociações, Johnson ligou para o comandante da Enterprise, porta-aviões americano que estava no Japão quando o Pueblo foi capturado e em seguida se dirigiu ao norte para pedir que ele desse meia-volta.

As negociações foram passando, e Johnson por fim lançou um aumento de forças americanas dentro e perto da Península Coreana, enviando uma armada para o Mar do Japão e 100 aviões de guerra para a Coreia do Sul em um sinal inequívoco para os norte-coreanos de que os Estados Unidos estavam prontos para atacar. Mas, nos bastidores, o presidente estava seguindo uma via diplomática.

"Por um lado, ele estava fazendo ameaças bem claras. Mas por outro, ele lançou essas negociações secretas com os norte-coreanos para tentar encontrar uma solução", disse Jack Cheevers, autor de "Act of War" ('Ato de guerra'), livro sobre a captura do Pueblo. "Johnson foi muito criticado durante esses 11 meses por não fazer o suficiente para trazer a tripulação de volta, mas na verdade as negociações secretas estavam acontecendo e ele de fato conseguiu trazê-los de volta."

No final, a diplomacia funcionou, mas somente depois que representantes dos Estados Unidos efetuaram uma manobra bizarra: fazer com que um oficial americano de alto escalão, o major-general Gilbert H. Woodward, enviasse um pedido de desculpas por "atos graves de espionagem" cometidos pelo Pueblo contra a Coreia do Norte, que ele assinou somente depois de realizar uma coletiva de imprensa declarando que o documento estava repleto de mentiras.

"Esse foi um episódio muito frustrante", disse Rusk quando eles foram soltos. "Mas a grande maioria de nosso povo manteve a cabeça no lugar".

Leia também: Pyongyang: 'Nossas armas nucleares estão apontadas aos EUA'

Fonte: noticias.uol.com.br

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