Receba atualizações de notícias ao minuto sobre os temas mais quentes com a NewsHub. Instale já.

Após dia de atos contra e a favor e com escolas ocupadas, Catalunha se prepara para plebiscito sobre independência

1 de Outubro de 2017 01:01
71 0
Após dia de atos contra e a favor e com escolas ocupadas, Catalunha se prepara para plebiscito sobre independência

Região autônoma espanhola vai às urnas neste domingo para participar de um pleito que é considerado ilegal pelo governo central e que foi proibido pela Justiça.

A véspera do referendo convocado pela independência da Catalunha foi marcada, em diversas cidades da Espanha, por protestos contra e a favor de uma possível separação da região autônoma.

O governo catalão - controlado por separatistas - quer declarar independência se o "sim" vencer no plebiscito marcado para este domingo. Já o governo central espanhol considera a votação ilegal, e a Justiça ordenou sua suspensão.

Madri, capital do país, foi palco das maiores manifestações contrárias à realização do referendo. Estima-se que cerca de 10 mil pessoas passaram pela praça Cibeles, onde fica a prefeitura. Muitas empunhavam bandeiras da Espanha e faixas com dizeres como "Catalunha é Espanha".

Mesmo em Barcelona, capital catalã, houve atos contra a consulta. Milhares de pessoas se reuniram na praça de Sant Jaume, onde ficam a prefeitura e o Palau de la Generalitat, sede do governo regional.

Desde a noite de sexta-feira, mais de 160 escolas foram ocupadas pacificamente por defensores do plebiscito. Mais da metade das 2.315 que funcionariam como seções eleitorais foram fechadas pela polícia.

Para tentar impedir a consulta popular, centros de votações e de contagem de votos estão sendo interditados pela polícia, que foi orientada a recolher urnas e cédulas.

O centro de telecomunicações da região também está sendo monitorado para evitar o voto eletrônico no pleito e o governo central determinou que a Polícia Nacional reforce a segurança na Catalunha e dê suporte à força local, a Mossos d'Esquadra.

Muitos pais decidiram acampar com seus filhos nas escolas na tentativa de assegurar a realização da polêmica consulta, que o governo central quer evitar de qualquer maneira. Apesar da ordem para desocupar todas as seções eleitorais, pais e filhos passaram a tarde de sábado participando de brincadeiras lúdicas nas escolas ocupadas pelos pró-plebiscito.

Ainda assim, o clima é tenso na região e não se sabe como a polícia vai reagir neste domingo, quando milhares de eleitores vão poder responder a uma única pergunta: "Você quer que a Catalunha se torne um Estado independente na forma de uma República?".

O que, afinal, despertou a busca pela independência dessa região de 7,5 milhões de pessoas - e será que ela será concretizada?

A Catalunha, cuja capital é Barcelona, é uma das regiões mais prósperas e produtivas da Espanha, e sua história tem quase mil anos.

Antes da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), a região já tinha ampla autonomia em relação ao governo central, mas isso mudou com a ditadura de Francisco Franco (1939-1975).

Quando Franco morreu, o nacionalismo catalão reacendeu, e a região voltou a gozar de autonomia sob a Constituição de 1978.

Uma legislação de 2006 garantiu ainda mais poder ao governo regional, dando à Catalunha o status de "nação" - mas isso foi revertido em 2010 pela Corte Constitucional espanhola.

Em 2015, separatistas venceram a eleição governamental e decidiram realizar o referendo deste domingo - com base em uma votação não oficial de novembro de 2014, quando 80% dos votantes deu sinais de apoio à independência catalã.

Ignorando a Constituição, que diz que a Espanha é indivisível, o Parlamento catalão aprovou o plebiscito em uma lei de 6 de setembro.

Segundo a lei aprovada pelo parlamento regional, o resultado é vinculante - ou seja, caso a maioria vote pelo sim, a independência supostamente terá de ser declarada pelo Parlamento dois dias depois de a comissão eleitoral catalã anunciar os resultados.

Uma frase do premiê Mariano Rajoy resume o mal-estar de Madri, sede do governo central, com a situação: "Digo isto com calma e firmeza: não haverá plebiscito; ele não vai acontecer".

A pedido de Rajoy, a Corte Constitucional espanhola suspendeu a lei aprovada pela Catalunha. Desde então, o governo espanhol tentou aumentar seu controle sobre as finanças e políticas da região.

Em resposta, o presidente catalão, Carles Puigdemont, afirmou que "a Espanha suspendeu na prática o autogoverno da Catalunha e colocou em prática um estado de emergência".

Para as autoridades da Catalunha pró-independência, um alto índice de comparecimento às urnas é essencial para dar legitimidade ao pleito - e, por isso, o governo central em Madri tenta de todas as formas impedir a realização da consulta.

Na prática, um plebiscito sendo ativamente suprimido pelo governo e considerado ilegal dificilmente será visto como livre ou justo.

Partidos leais à Espanha estão boicotando a votação deste domingo, então é possível que os votos pelo "não" estejam subrepresentados.

Madri está tentando tirar a legitimidade do evento - cartazes foram retirados pela polícia e autoridades envolvidas com o pleito foram alvo de multas pesadas. O site oficial da consulta foi bloqueado (ainda que possa ser acessado de fora da Espanha).

Ainda assim, será muito difícil para Madri ignorar o pleito dos separatistas caso os eleitores catalãs compareçam às urnas em peso.

Só 2,2 milhões de eleitores (de um total de 5,4 milhões) compareceram à votação de 2014 - que, assim como o pleito deste domingo, foi considerado ilegal por Madri. Organizadores estimam que 80% dos votantes de três anos atrás defendiam a independência.

No último 11 de setembro, dia nacional da Catalunha, uma multidão tomou conta das ruas de Barcelona num protesto pró-separatismo.

No entanto, uma pesquisa de opinião encomendada pelo próprio governo catalão em julho sugeriu que 49% da população catalã se opõe à independência, contra 41% a favor.

A urgência do governo catalão em realizar o referendo pode ser explicada em parte pela percepção de que o apoio à independência pode estar em queda. Ao mesmo tempo, a oposição do governo central ao pleito reascendeu os ânimos por parte dos defensores do separatismo.

A demanda é antiga. A Catalunha tem sua própria língua, história e uma população equivalente à da Suíça (7,5 milhões de habitantes).

Ao mesmo tempo, trata-se de uma região vital do Estado espanhol, ao qual pertence desde o século 15, e - segundo defensores da independência - sujeita a campanhas repressivas periódicas para ficar mais "parecida" à Espanha.

O retorno da Espanha à democracia trouxe prosperidade, e Barcelona se tornou uma das cidades mais populares da União Europeia - famosa pela Olimpíada de 1992, pela arquitetura, pelo futebol e por sua vocação ao turismo.

Mas a crise espanhola de 2008 atingiu a Catalunha em cheio, elevando o desemprego na região para 19% (a taxa nacional é de 21%).

A região, que abriga 16% da população espanhola, responde por quase 20% do PIB do país - e existe entre os catalães a sensação de que o governo central não provê suficientemente a região para recompensá-la por isso.

Esse sentimento de injustiça estimulou a campanha pró-independência e, quando a Justiça espanhola restringiu os poderes catalães em 2010, o clamor por secessão aumentou.

De fato, parece que Madri recebe mais do que devolve - embora a complexidade das transferências orçamentárias dificulte o entendimento claro de o quanto mais os catalães contribuem à Espanha em impostos em relação ao que recebem de volta em serviços.

Dados de 2011 governo espanhol indicam que a região pagou 8,5 bilhões de euros (R$ 31,8 bi) a mais do que recebeu. Segundo o governo catalão, essa cifra é na verdade 11 bilhões de euros (R$ 41 bi).

O investimento estatal na Catalunha caiu, mas muitos argumentam que esse modelo de alocação de recursos é comum em países que, como a Espanha, têm grandes disparidades regionais de renda e desenvolvimento.

Há pressão para isso. A Confederação Espanhola de Organizações Comerciais (CEOE, na sigla em espanhol) pediu em comunicado "uma atitude construtiva para evitar que (o referendo) afete a coexistência social e a prosperidade econômica".

O presidente catalão Puigdemont propôs suspender o referendo deste domingo se ele puder ser substituído por uma votação que seja reconhecida como legítima. "(Madri) deve definir como e quando os catalães poderão votar, para que sentemos e fechemos um acordo a respeito", afirmou.

O governo central, que não dá nenhum sinal de que pretenda contemplar um referendo legal, pode em contrapartida oferecer mais dinheiro e autonomia aos catalães, segundo disse o ministro da Economia espanhol, Luis de Guindos, ao jornal Financial Times.

"Se os planos de independência forem abandonados, podemos conversar", afirmou ele.

Leia também: Após confusão, homem é atingido com um tiro em conveniência da capital

Fonte: terra.com.br

Partilhe nas redes sociais:

Comentários - 0