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Esse cara não sou eu

20 de Agosto de 2018 02:10
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Elvis não só não morreu, como faz cerca de 80 apresentações por ano mesmo em tempos de crise. Festas de casamento, em teatro, com playback, com banda, em diferentes formatos. Antes da crise, ele chegou a fazer 120 shows por ano. Já são três décadas desde que Edson Galhardi (imagem acima) começou a incorporar Elvis Presley nos palcos, e fez disso sua única profissão, que leva extremamente a sério. Ele só sobe ao palco com trajes feitos pela loja oficial BK Enterprises, da qual já chegou a ter 30 diferentes no armário – cada um custa entre US$ 4 mil e US$ 5 mil. As joias são feitas pelo mesmo fabricante que fazia as joias do Elvis. Já esteve duas vezes em Graceland, a casa-museu do cantor. Mesmo assim, Galhardi afirma que nunca misturou as personalidades. “Vivo no palco mas não vivo do palco, eu não sou Elvis fora dele. Isso sempre esteve claro na minha cabeça.”

A primeira coisa que chamou a atenção do garoto Edson de 10 anos de idade para o Elvis não foi a música, mas uma foto na capa de disco. “Ao vê-lo, tive a sensação de estar diante de um super-herói da minha época”, lembra. Era início dos anos 1980. Ele levou o disco para casa, começou a ouvir e nunca mais parou. Pouco depois, passou a cantar profissionalmente, já como Elvis, vestido a caráter, inclusive. “Em 1990, já fiz meu primeiro show em teatro, a coisa virou muito rápido pra mim”, afirma. Questionado sobre o que gostaria de perguntar ao ídolo se tivesse oportunidade, ele se emociona e lembra que estamos conversando perto do aniversário de morte do cantor, 16 de agosto. Quer dizer, morte não. “Eu digo ausência do Elvis, porque ele não morreu. Fisicamente eu acredito que ele não esteja com a gente, mas não morreu”, afirma.

Desejar viver a vida do outro sempre foi uma questão filosófica e política. E este desejo pode ser estabelecido na forma de uma relação saudável, dependendo da natureza em que ela se estabelece. “Viver a vida do outro, sem se perceber em relação ao outro, é colar numa imagem geralmente de sucesso e de felicidade que se compra como promessa para a felicidade pessoal. Mas nem sempre o comportamento mimético é perverso ou pernicioso, porque pode ocorrer em uma relação de aprendizagem, entre mestre e aprendiz”, explica Carla Damião. “Mas, para além desse aspecto afetivo de aprendizagem, a mera cópia da aparência ou do comportamento do outro que se institui como padrão ideal ou bem-sucedido, caracteriza-se não como autoconhecimento, mas como autoengano”, ela conclui.

Antes de procurar entender o desejo de viver a vida alheia, é importante pontuar algo anterior: espelhar-se no outro é, em essência, não só algo normal como fundamental para o desenvolvimento do ser humano. “Todos nós nos transformamos em humanos a partir do outro. Você vai recortar o mundo a partir de parâmetros que vêm de fora, a gente se vê em primeiro lugar a partir do outro”, teoriza Mario Eduardo Costa Pereira, psiquiatra, psicanalista e professor do Departamento de Psiquiatria da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Segundo o médico, quem vive Elvis Presley no palco costuma ter plena consciência da licença poética que a cena envolve. O problema é quem segue no papel fora dele. “Mas isso só precisa ser tratado quando o sujeito vive em uma condição psicótica, quando rompe com o mundo e vive aquilo como uma realidade”, completa Pereira. Logo, nunca é demais reforçar que a nossa identidade, gostemos mais ou menos dela, é construída a partir do outro. “A identidade é uma representação social, cultural, portanto ela é criada numa cultura. Na medida que o ser humano se desenvolve, ele vai se identificando com essas representações sociais disponíveis e erguendo sua própria identidade a partir das experiências de vida”, explica Rosane Lorena Granzotto. “As identidades são buscadas, elas não são propriedades individuais, logo faz parte da criação buscar certos modelos e se identificar com eles. O que está longe de ser uma patologia”, completa a psicóloga.

Fonte: tab.uol.com.br

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