'Fim de pesadelo', diz absolvido em novo júri após 3 anos preso na Bahia

17 de Abril de 2015 19:17

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'Fim de pesadelo', diz absolvido em novo júri após 3 anos preso na Bahia

Guarda municipal foi acusado de estupro e morte de garota em Camaçari.Ele foi inocentado em julgamento na quinta-feira: 'Melhor dia da minha vida'.

Foram quase quatro anos de angústia até que o guarda municipal José Pereira Júnior, de 47 anos, pudesse voltar a se sentir aliviado e tranquilo novamente. Acusado de estuprar e matar a estudante Adriani Melo, então com 16 anos, em 2011, ele chegou a ser condenado a 24 anos de prisão, mas teve o julgamento cancelado e foi absolvido em novo júri realizado na quinta-feira (16), em Camaçari, na região metropolitana de Salvador. Em razão da primeira condenação, José Pereira ficou preso por três anos e 20 dias.

Nesta sexta-feira (17), José Pereira conversou com o G1 e comemorou o que, para ele, foi o "fim de um pesadelo". "É uma sensação maravilhosa ser inocentado, a verdade vir à tona. Você estar sendo acusado de uma coisa que não fez é muito ruim. Fiquei recluso três anos e quase um mês, privado da minha liberdade, da minha família, dos meus amigos, meu trabalho. Quem realmente comete o crime não quer ficar preso, imagine uma pessoa inocente passar por uma coisa que não fez. É o fim de um pesadelo".

O crime ocorreu no dia 28 de junho de 2011, em Vila de Abrantes, distrito de Camaçari. De acordo com a polícia, Adriani de Melo foi sequestra enquanto estava com o namorado, que tinha 17 anos. O adolescente disse à polícia que a namorada foi levada por um homem em um carro e o corpo da menina foi encontrado com sinais de violência sexual um dia depois. O jovem fez um retrato falado, que depois foi usado como uma das provas do caso.

Já a defesa de José Pereira usou o depoimento de testemunhas, que confirmaram que ele ele estava em uma confraternização no dia que a garota sumiu. Mesmo assim, o guarda municipal foi preso no dia 20 de julho de 2011, quando saía de um plantão do trabalho em Lauro de Freitas. Em 2013, ele foi condenado a mais de 24 anos, mas conseguiu a anulação do julgamento. O pedido de liberdade provisória foi concedido em agosto de 2014.

"Você sair para trabalhar e voltar algemado é humilhante. Ficar na prisão, longe da família é o mais difícil porque ela é nossa base. Além disso, a gente fica privado da liberdade, não pode fazer o que quer, ir aonde quer, tem que fazer tudo com ordem determinada, come quando te dão comida, toma banho quando permitem. Você corre risco de rebelião, tem a humilhação na hora da visita, quando a gente passa constrangimento ao se despir diante das pessoas que trabalham lá", recorda.

Técnica de enfermagem, a esposa e mãe dos três filhos do guarda, Iralva Lima, afirma que o dia da condenação do marido foi o mais difícil em todo processo. "Até então, mesmo preso, a gente esperava que a justiça fosse feita. A gente sabia que não tinha prova contra ele e eu achava que no dia do julgamento ia aparecer a verdade. Mas, para meu desespero, ele foi condenado a 24 anos apenas pelo testemunho do namorado da vítima", lamentou.

"Acredito que a justiça só queria prestar satisfação à sociedade. Queria solucionar um crime brutal, mas de forma errada. Não é pegar qualquer inocente porque é pobre, é preto, acusar e apresentar só para solucionar o caso", reclama José.

Apoio da família Desde o início, o guarda contou com o suporte de amigos, familiares e até de outros grupos sociais. Iralva afirma que nunca duvidou da inocência do companheiro, com quem está há 23 anos. "Agora estou me sentindo aliviada. Passei momentos muito difíceis. Foram três anos e vinte dias muito sofridos, porque você passar por um presídio é humilhante. Fomos tratados como criminosos e agora estou me sentindo aliviada sabendo que a justiça foi feita", diz.

"Todo mundo foi pego de surpresa, nunca ia imaginar que isso dele ser preso fosse acontecer. Daí foi só luta. Nossa família sempre procurou estar unida, manter a calma. Sempre acreditamos nele, em momento nenhum duvidamos. A sensação agora é que a justiça foi feita. Assim como tem o lado da garota assassinada, não é colocando um inocente atrás das grades que ia se fazer justiça", acrescenta o filho mais velho do casal, Jefferson Ferreira.

Iralva conta que a filha mais nova, que na época tinha oito anos, precisou ser acompanhada por um psicólogo. "Ela tinha oito anos quando ele foi preso e presenciou tudo. Ela viu quando ele foi levado algemado até em casa pela polícia, quando foram procurar alguma prova. Ela me ligava diariamente e perguntava se eu ia voltar para casa", recorda a mãe. "Quando chegava o dia dos pais era tristeza, parecia um velório dentro de casa. Eu tinha que acalmar os meninos", completa.

"Sofre todo mundo, tanto a gente que passa pela situação, quanto a família. Minha filha ia fazer oito anos na época, ia comemorar aniversário dia 25 de julho e me prenderam dia 20. Não podia ir para o aniversário dela, não podia fazer a festa de aniversário dela. E como fica uma criança que não pode ter o pai?", questiona Pereira.

Volta para casa Em casa desde agosto de 2014, quando deixou a prisão para responder em liberdade, José Pereira retomou os trabalhos como guarda municipal e agente comunitário. Mesmo com o retorno, ela recorda que teve medo de sair nas ruas nos primeiros dias.

"A recepção pelos colegas de trabalho foi boa, com comemorações. Todo mundo me conhece, sabe da minha índole. Mas tive medo, pânico, porque a gente passa na televisão como homicida, estuprador. Ninguém sabe a recepção das pessoas na rua. Muitas pessoas que não pensam, não têm informação, podem querer fazer justiça com as próprias mãos a qualquer momento", conta.

"Quando ele saiu e o julgamento foi cancelado, sentimos um alívio, mas ficamos apreensivos porque a gente sabia que ele ia passar por um novo júri. Estamos retomando a nossa vida. No começo, ele ficava mais dentro de casa, não saia nem para ver os amigos. Ficou com aquele receio depois de tudo que passou, mas isso a gente vai retomando aos poucos", completa Iralva.

Após o fim do pesadelo, José Pereira espera continuar agora seguindo seu trabalho normalmente e tentar recuperar o tempo perdido com a família e os amigos. "Quando você recebe a sentença injustamente, falta terra nos pés, pensa que acabou sua vida, pensa na família, filhos, acabou tudo. Nesse dia não sabia o que faria, foi o pior dia da minha vida. Mas ontem, depois de tudo foi o melhor, porque diante dessa situação toda provei minha inocência".

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Fonte: g1.globo.com

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