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Mas o que é Copa Brasileira de Letras?

10 de Junho de 2018 17:30
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A manhã de 25 de junho de 2014 foi um grande dia para a seleção brasileira na Granja Comary. Um dia de marketing, que era a marca dos grandes dias. As crianças chegaram excitadas para ocupar a pequena arquibancada diante do treino, o lugar só alcançado por convidados da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e dos jogadores. Aquelas não eram as crianças que costumavam estar ali. Elas mesmas se apresentavam: “sou da tragédia”.

A tragédia era a identidade que as autorizava a chegar perto da seleção de futebol do seu país, um grupo de jogadores bilionários que tinha sua aparição controlada pela CBF e pelos patrocinadores. Desciam das instalações ultraprotegidas da granja até o lugar do treino ou da entrevista coletiva, e eram levados de volta para as alturas, como crianças aladas.

Treino e entrevista coletiva eram espetáculos planejados para gerar imagens para a TV e aspas nos jornais. Fazer o dinheiro gerar mais dinheiro. Não era preciso esforço para ouvir o som das engrenagens em movimento.

Qualquer pergunta jornalística que merecesse esse nome era recusada, jornalistas que faziam perguntas de jornalista eram despachados direto para o limbo do ainda poderoso assessor de imprensa da CBF. Dali em diante sua voz ricochetearia em vão pela lona do circo da imprensa. Enquanto isso, seus colegas, na impossibilidade de se pendurar nas bolas de ouro, tiravam selfies com o rei.

Naquela manhã, as crianças “da tragédia” tinham sido alçadas ao lugar privilegiado de súditos que teriam acesso aos jogadores. Não era um presente, mas uma conquista. Um membro da associação das vítimas se plantara na entrada da Granja com uma camisa da seleção e o rosto pintado de lama: “Aqui não é só a casa da seleção. É também a casa das vítimas”.

Era imperativo neutralizar a crítica, qualquer crítica. Na porta da Granja só deveriam aparecer garotas adolescentes, estimuladas por suas zelosas mães, segurando cartazes como “Hulk, deixa eu apertar a sua bunda” – ou crianças fofas com a peruca ruiva de David Luiz. Todos disputando não a seleção, mas a atenção das câmeras de TV.

Era preciso exterminar a crítica, mas ganhando pontos para a imagem da seleção brasileira e da CBF. Sem lucro, alguém poderia ser demitido. As crianças “da tragédia” conquistaram então o privilégio de assistir à seleção da arquibancada – e concederam o direito de serem usadas como propaganda positiva para a seleção e a CBF.

Entrei no cercadinho para entrevistá-las, causando mal-estar entre jornalistas da TV Globo que já estavam lá. Era uma lei não escrita, mas absoluta e estritamente cumprida pelo conjunto da imprensa: os funcionários da Globo tinham a primazia de entrevistar primeiro. Do lado de fora, os não Globo poderiam se distrair pastando o gramado enquanto esperavam a sua vez.

Ao violar a lei que violava regras elementares do jornalismo, fui tirada do cercado da fama por um segurança. Eu ainda não tinha entendido que jornalismo esportivo, para parte da imprensa na Granja Comary, era entretenimento. O jornalismo era só mais uma ficção do negócio que chamavam futebol. “Você é da Globo?”. “Não, sou jornalista”. “Agora é só a Globo. Vou ter que tirar a senhora daqui.” “Mas como assim só a Globo? Sou jornalista e estou fazendo o meu trabalho.” “Agora é só a Globo. Vou ter que tirar a senhora daqui.” Tirou.

Quando os jornalistas não Globo foram autorizados a entrar no cercadinho – e cercadinho é um nome exato –, as crianças cumpriram seu papel de falar da tragédia para o time do grupo B. Não era marketing, era vida. Na noite de 12 de janeiro de 2011, elas perderam mãe, pai, irmãos, tios, primos, a casa. Tudo soterrado pela enchente e pelo descaso do poder público. Um menino me contou que perdeu a mãe e 26 parentes. Seu pai ficou soterrado por 16 horas. Ele era um dos pedreiros que havia construído a Granja Comary. O menino foi arrastado por quatro quilômetros pelas águas, a cicatriz marcada no corpo para sempre. Na arquibancada da Granja Comary havia crianças que ainda acordavam à noite gritando.

Era vida, mas rapidamente se transformava em marketing. Era essa a alquimia da CBF e da seleção. Tudo o que tocavam virava produto. Agora havia o selo “da tragédia”.

Entre os milhares de crianças e adolescentes cujas famílias foram atingidas pelas chuvas, os 50 que conseguiram ultrapassar os vários portões da Granja foram escolhidos “pelo critério de quem perdeu mais gente”. Como numa competição. O ingresso para estar na arquibancada era a quantidade de mortos.

Naquele 25 de junho de 2014, os “da tragédia” estiveram a serviço do fortalecimento da imagem de uma seleção apartada do povo, que tinha na Copa do Mundo no Brasil a melhor oportunidade histórica para gerar cifras mitológicas – e propinas monstruosas – para os mesmos de sempre.

Os jornalistas estavam ali para fazer a sua parte no negócio: contar a “história humana” do encontro. Ou a “história de superação”. O futebol como aglutinador de identidades, reparador de traumas. O futebol sendo futebol. Mas não havia nenhum futebol na Granja Comary. Havia o menino que cortou e pintou o cabelo para ficar igual ao do Neymar. E que por isso ganhou uma bola e um autógrafo. Tão bom que quase pareceu combinado.

Sentei no gramado e fiquei apenas escutando o que as crianças falavam quando eram crianças – e não “players”. “Aquele aparece na TV! Corre lá!” “Eu peguei um autógrafo dele.” “Ela é da Globo, não lembro o nome da mulher, mas faz um selfie que depois a gente vê.”

Os jogadores, obedientes, encenavam um treino. Mas “os da tragédia” esqueceram de fingir que o assistiam.

Diante da resposta negativa, me abandonaram quase zangados. Sem autógrafo, sem selfie. Pobres de novo os “da tragédia”.

Fonte: uol

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